24 de janeiro de 2009

A simplicidade chinesa - 1




Três adjectivos caracterizam sucintamente o conteúdo da loja. Para quê complicar?

Primeiro tema gramatical: para aquecer os motores

Enviei ontem uma dúvida para o Ciberdúvidas. Não foi, portanto, ainda respondida.

A questão é:
Quando o verbo ser indica uma quantidade bem determinada é regido da preposição 'de'? Ou seja, deve-se escrever, por exemplo, «A média de idades foi de 75 anos»; ou, por outro lado, é preferível escrever «A média de idades foi 75 anos»?

A Ressurreição em Ibsen

Talvez uma das melhores traduções literárias do tema da Ressurreição dos Mortos: tanto para crentes como para não-crentes.

Eu queria retratar a mulher perfeita, como eu sentia que ela devia despertar no dia da Ressurreição: não maravilhada perante algo desconhecido e impressentido, mas plena de uma alegria santificada ao descobrir-se a si mesma inalterada...


Peças escolhidas de Ibsen, vol. 1
«Quando nós, os mortos, despertamos»
Edições cotovia, p. 35

5 de janeiro de 2009

As palavras desenharam a ilusão
E nessa noite deram-lhe criação.

A criação das palavras de ilusão
Traz consigo peso e destruição.

15 de dezembro de 2008

a evolução das espécies


Sempre me inquietou o uso de conteúdos explicativos fora do seu âmbito. Um dos exemplos com que mais me deparo é o uso da teoria da selecção natural, como meio de explicação da também teórica evolução das espécies, fora do meio restrito da biologia. Chamo-lhes teorias porque hoje se tomam como facto «demonstrado cientificamente», quando na verdade a evolução das espécies ou a selecção natural, em rigor, não podem ser demonstradas: constituem um modelo interpretativo coerente e, aparentemente, com um alto grau de evidência.

Não está em causa a teoria da evolução das espécies: se acreditamos ou não. Por mim, acredito que de facto houve uma evolução das espécies animais «by means of natural selection», mas trata-se quase de uma questão de fé.

O que está em causa é o mau uso da teoria para logo elaborar intrincadas extrapolações sociológicas. O problema é que não se trata de estabelecer um raciocínio analógico, mas sim o uso da própria teoria para aplicação noutras áreas que não as da biologia.


A evolução das espécies não pode ser usada como mais do que uma descrição científica para a interpretação de certos factos da natureza. Usá-la como arma de arremeso sociológica é simplesmente falacioso. Revi-me pois no seguinte passo de Chesterton da Ortodoxia:

A evolução é, ou uma inocente descrição científica do modo como certas coisas terrenas surgiram; ou – no caso de ser algo mais do que isso – um ataque ao próprio pensamento. Se a evolução destrói alguma coisa, o que ela destrói não é a religião, é o racionalismo. Se a evolução significa, muito simplesmente, que uma coisa positiva chamada macaco se transformou, muito lentamente, numa coisa positiva chamada homem, então é inofensiva para os mais ortodoxos; porque um Deus pessoal tanto pode fazer as coisas lentamente como fazê-las depressa, em especial se se encontrar, como acontece com o Deus cristão, fora do tempo.


13 de dezembro de 2008

Selbst em Hermann Broch




Quando ia pelos nove anos, num dia dei por mim a entrar […] no bosque; era manifesto que desse modo me isolava dos outros miúdos, que brincavam à sua entrada, e depois de ter percorrido, durante algum tempo, essa paisagem tão minha conhecida, tomei subitamente consciência da minha solidão, não da solidão do meu corpo, mas da solidão da minha alma; quero dizer, soube subitamente que só o meu eu pensante era a verdadeira realidade, ao passo que tudo o resto, companheiros e árvores e animais, permanecia forçosamente num plano onírico e só por minha graça recebia realidade. Em resumo, eu tivera, de modo suficientemente terrível, a «experiência platónica», a partir da qual deveria desenvolver-se toda a minha futura atitude vital. Pois aparecia-me agora com absoluta necessidade a tarefa de criar uma nova realidade a partir da atmosfera onírica, de separar o real do irreal e conceder-lhe uma solidez existencial irrevogável «demonstrável». O homem solitário […] convertia-se subitamente pelo pensamento num «criador do mundo», a saber, num filósofo platónico, para quem recriar uma vez mais o mundo pelo pensamento se convertia numa missão. E de igual modo pela descoberta da solidão do eu, tinha encontrado ao mesmo tempo um antídoto para todos os anteriores desejos infantis de suicídio, não apenas porque a ela estava ligada a descoberta da existência da alma e da sua inviolabilidade, mas também porque a tarefa recém-descoberta do conhecimento precisava de muito tempo, sim, precisava mesmo de uma existência terrena particularmente longa.

Psychische Selbstbiographie
(traduzido por Maria Filomena Molder)

17 de outubro de 2008

Ariane em Naxos - a chave de um poema de Sophia

Ariane em Naxos

Tu Teseu que abandonadas amadas
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul

Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu

E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras

Sophia de Mello Breyner, Dual

Conta-nos Giorgio Colli, em La Nascita della Filosofia, que é cinco séculos antes de o culto de Apolo ser introduzido em Delfos, pouco depois da metade do segundo milénio a.C., «nesse lendário mundo minóico-micénico alargado a Creta», que se origina o culto a Dioniso: um Dioniso ainda cretense.

O mais antigo mito grego é precisamente cretense, o mito do Minotauro. Nele encontramos pela primeira vez Ariana, filha de Minos e Pasífae, o primeiro rei de Creta. Ariana é a única figura feminina em toda a mitologia grega que se apresenta directamente ligada a Dioniso. Diz Hesíodo: «Dioniso de cabelos de ouro fez sua esposa florida a loura Ariana, filha de Minos, que o Crónida tornou imortal e sem velhice».

Dioniso permanecerá ligado ao todo das mulheres, mas nunca a nenhuma em particular, com excepção de Ariana. Mas a mulher feita «imortal e sem velhice» pelo Crónida não é, assim, uma mulher qualquer, mas uma mulher-deusa. Veremos que nesta dualidade de Ariana, como se vê por via de regra na mitologia grega, há uma polarização de carácter antagónico das duas dimensões, humana e divina.

O matrimónio entre Dioniso e Ariana é tudo menos pacífico. Diz Homero: «E vi a filha de Minos insidioso, a bela Ariana, que outrora Teseu trouxe de Creta para a alta rocha de Atenas protegida pelos deuses, mas dela não fruiu: Ártemis matou-a primeiro, por testemunho de Dioniso, em Dia [Naxos] rodeada pelo fluxo marinho.»

Segundo a versão mais antiga do mito, apoiada tanto pelo testemunho de Hesíodo como pelo de Homero, Ariana abandona Dioniso por amor de Teseu, o que implica a opção por uma vida humana em detrimento de uma vida divina. Neste momento da narrativa mitológica há um claro triunfo da dimensão humana sobre a dimensão divina, o homem sobrepõe-se ao deus.

Mas, no fim, Dioniso prevalece já que é a sua acusação que guia a punição de Ártemis: Ariana é morta como mulher, por Ártemis, nunca chegando a ser possuída por Teseu, e é condenada a viver como deusa. Numa versão mais recente do mito, de que nos fala Sophia, Ariana é abandonada, paradoxalmente, por um Teseu precocemente cansado dela, na ilha de Naxos.

Em qualquer versão do mito o facto é que o triunfo do homem sobre o deus é breve. O deus rompe imediatamente com toda a presunção de uma continuidade humana em Ariana. Dissolvida essa sua ilusão humana, e tornada novamente «imortal e sem velhice», Ariana é restituída ao deus-animal (na soberba expressão de Sophia, o «Dionysos pantera») que, assim, permanece como vencedor sobre qualquer pretensão humana.