6 de janeiro de 2007

SENTIDO DO MUNDO - 3

A existência humana varia como um camaleão: depende do ramo em que está. À pergunta «Como és?» temos de pedir para especificar «A que horas?». Não há uma identidade definida, além de que temos um preconceito contra tudo o que tente unificar as várias regiões da nossa existência, já que isso corresponde ao quixotismo.[1]

D. Quixote tenta incutir um sentido não-balcânico e não-formal à existência, isto é, tenta unificar todas as regiões da sua existência através de uma só ideia: a de ser um cavaleiro andante. Só através de uma ideia unificadora pode a existência ter qualquer sentido (obviamente que a ideia unificadora de D. Quixote não chega para conferir sentido à sua existência, pois é muito curta). Sancho Pança (ou como escreveu um aluno de Direito: São Xupança...), por seu lado, representa o senso comum levado ao extremo.


[1] Curiosamente, entre as várias acepções possíveis da palavra, o Houaiss regista «a defesa de causas que são estranhas aos seus próprios interesses.»

18 de dezembro de 2006

SENTIDO DO MUNDO - 2

O regime normal de sentido é o que atribui significado ao que fazemos. Vivemos dominados pelo significado que atribuímos às nossas possibilidades (é o que dá sentido à nossa vida). Eg, a saúde define claramente o significado da existência e é uma possibilidade. Isto significa que a possibilidade de saúde permite outras possibilidades e, assim, a capacidade atinente de extrair um significado para a existência; a possibilidade de doença rapidamente fatal como que pode anular todas as outras possibilidades passíveis de atribuir um significado à existência, o que pode redundar, como já vimos, no desespero.

A particularidade do nosso regime de sentido é a sua balcanização[1] (regionalização). Há como que cantões (regiões correspondentes à preguiça, à riqueza, ao amor, etc.) que podem chocar entre si, como se não houvesse uma unificação entre eles. Diz-se que o significado da existência é míope porque, tal como os dias de nevoeiro, o alcance da visão que temos dele pode variar (nevoeiro que se vê até 10, 20, 30 m...). Ou seja, não há um alcance contínuo da visão da vida. Por isso estamos condicionados a viver de acordo com objectivos que vamos estabelecendo dia a dia, consoante a distância da nossa visão nessa altura (eg, acabar a faculdade, deixar de fumar, etc.) Diz-se também que é a prazo, pois as coisas vão aparecendo no dia-a-dia, não estão todas estabelecidas ao mesmo tempo.

Muitas vezes há choques entre as várias determinações (regiões): a unidade do conjunto de sentidos da nossa vida é lassa e variável (ie, podemos ir adoptando diferentes regimes de sentidos ao longo da vida). Mas há ou não uma presidência neste regime de sentidos? Na verdade, há uma unificação do regime de sentido da vida que somos nós. Tudo o que fazemos é por mor de nós. Mas o que somos nós? Somos uma inconstância, devido ao facto de sermos completamente balcanizados (um dia fazemos x por nós e no dia seguinte já podemos fazer y também por nós, sendo que esse y pode ser contrário ao x). A balcanização é realmente completa? Sim e não. Tudo o que fazemos é por mor de nós próprios, mas nessa equação o «nós» corresponde a uma variável.


[1] Balcanizar é, de acordo com Houaiss, «fragmentar (uma região, um país ou império) em Estados menores, tornando-os (ou não) antagónicos. A acepção pejorativa do verbo balcanizar reflecte a fragmentação histórica dos Balcãs, caracterizando-os como área de constante conflito e permanente instabilidade.

15 de dezembro de 2006

SENTIDO DO MUNDO - 1

A tese é: «vivemos sob a presidência do Mundo». Pretendo debruçar-me, ao longo de vários posts, sobre a reflexão filosófica do que é o mundo e de como nos encontramos nele.

O mundo corresponde à autonomização do finito. A nossa vida está determinada pelo sistema de possibilidade finitas (eg, nascer em Portugal é um conjunto de possibilidades de ser português, falar português, comer comida portuguesa, etc.). A nossa existência está condicionada por esse conjunto de possibilidades que nos é oferecido (eg, falar português, a nossa altura, a nossa massa corporal, o alcance da visão, etc.)

O conjunto de possibilidades contém em si o significado da nossa existência. Ou seja, aquilo que atribui significado à nossa existência é uma coisa possível de realizar porque está condicionada às nossas possibilidades. Quando determinado sujeito chega à conclusão de que aquilo que atribui significado à sua existência é algo impraticável, porque está além das suas possibilidades, dá-se o desespero. Isto quer dizer que o conjunto de possibilidades oferecidas não possibilita uma existência válida a esse sujeito, já que ele pensa essas possibilidades como insignificantes ou nulas.

25 de novembro de 2006

ai, meu Santo Anselmo, alumiai-me!

Já há muito tempo que eu não tinha de me deter tanto tempo para entender completamente o sentido de um raciocínio. Não sei se o problema é da tradução ou do raciocínio; deve haver culpa de ambas as partes =P

Portanto, Senhor, Tu que dás o entendimento da fé, concede-me que, quanto sabes ser-me conveniente, entenda que existes como acreditamos e que és o que acreditamos. E na verdade acreditamos que Tu és algo maior do que o qual nada pode ser pensado. Acaso não existe uma tal natureza pois o insensato disse no seu coração: não há Deus. Mas com certeza esse mesmo insipiente, quando ouvir isto mesmo que digo, algo maior do que o qual pode ser pensado, entende o que ouve e o que entende está no seu intelecto ainda que não entenda que isso exista. Com efeito, quando o pintor concebe previamente o que vai fazer, tem isso mesmo no intelecto, mas ainda não entende que exista o que não fez. Mas quando já pintou, não só o tem no intelecto como entende que existe aquilo que já fez. E, de facto, aquilo maior do que o qual não pode ser pensado não pode existir apenas no intelecto. Se está apenas no intelecto pode pensar-se que existe na realidade, o que é ser maior. Se, portanto, aquilo maior do que o qual não pode ser pensado está apenas no intelecto, aquilo mesmo maior do que o qual nada pode ser pensado é aquilo relativamente ao qual pode pensar-se algo maior. Existe, portanto, sem dúvida, algo maior do que o qual não é possível pensar-se não apenas no intelecto mas também na realidade.

Proslogion, Santo Anselmo

4 de novembro de 2006

o nosso tempo é tempo de pecado organizado

CANTATA DA PAZ

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Nós, o povo de Deus,
Reunidos imploramos
A graça da Paz
A graça da paz

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinza
A carne das crianças

O corpo humano foi
Queimado em Buchenwald
O corpo humano foi
Queimado em Buchenwald

Os países inventam
Bombas e prisões
A máquina produz
Perfeitas sujeições

E no terceiro mundo
Nos campos e na rua
A fome continua
A fome continua

D'África e Vietnam
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nos caminhos da terra
Os mapas continuam
De fome e sujeição
E continua a guerra

O cântico da flauta
E a música do banjo
Não podem apagar
O concerto dos gritos

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é tempo
De pecado organizado


Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen feito para a vigília, organizada por um grupo de leigos, que se seguiu à Missa pela Paz, no dia 1 de Janeiro de 1969, na igreja de São Domingos em Lisboa e que reuniu cerca de 150 fiéis. Foram publicadas em folhetos e, mais tarde incluídas no livro «Católicos e Política», editado pelo Padre José da Felicidade Alves. Por essa altura, algumas delas foram musicadas pelo Padre Francisco Fanhais e incluídas no álbum Canção da Cidade Nova.

O viado veste Prada

2 de novembro de 2006

Um post dedicado ao Ramos

Depois do «conceito de ironia em Sócrates», o «conceito de ironia em MacGyver»

15 de outubro de 2006

«Aquilo que é» é «Ele que é»

Platão percebera claramente que a explicação filosófica essencial para tudo o que existe devia afinal ser encontrada, não entre aqueles elementos da realidade que estão continuamente a ser gerados e que por isso nunca existem verdadeiramente, mas em alguma coisa que, por não ser gerada, é verdadeiramente, ou existe. Ora tal como foi sublinhado pelo autor desconhecido de Exortação aos Gregos, logo no III século d.C., o que Platão tinha dito era quase exactamente o que diziam agora os cristãos «apenas com a diferença do artigo. Porque Moisés disse: Ele que é; e Platão disse: Aquilo que é.» E é mesmo verdade que «qualquer uma das expressões parece aplicar-se à existência de Deus.» Se Deus é Ele que é, também é Aquilo que é, porque ser alguém é também ser alguma coisa. Contudo, o contrário não é verdadeiro, porque ser alguém é muito mais do que ser alguma coisa.

Étienne Gilson, Deus e a Filosofia