«Every afternoon, as they were coming from school, the children used to go and play in the Giant's garden.»
30 de maio de 2011
É necessário acordar em semana de eleições: a bananeira está seca.
6 de setembro de 2010
Não gostava do George Steiner até...
21 de agosto de 2010
15 de maio de 2010
Montaigne forever
Conheço um fidalgo que, depois de ter recebido um grupo de convidados no seu salão, quatro ou cinco dias mais tarde, contou em tom de anedota (por não haver qualquer verdade nisso) que lhes servira pastelão de gato; uma das damas que se encontrava na reunião ficou de tal modo horrorizada com isto que sucumbiu com um sério problema de estômago e um acesso de febre: foi impossível salvá-la.Ensaios, I, 21
27 de fevereiro de 2010
Porque beijamos as pessoas?
Porque beijamos as pessoas? Será apenas para desencadear potenciais de acção nas abundantes terminações nervosas sensitivas dos lábios? Será apenas para obter uma satisfação física? Ou procuramos mais do que isso? As expectativas que levamos na boca num beijo inicial vão além de uma tentativa de prazer suave e húmido, parecemos querer realmente saborear a pessoa em si e por inteiro, prendê-la como se os lábios fossem capazes de formas superiores de posse. A boca é, neste como noutros muitos sentidos, a maior sede de expressão da intimidade. Mas na verdade, talvez na verdade da modernidade, o beijo perdeu muito do seu poder. A boca, nesse sentido, constitui-se como simples órgão imperfeito de apreciação e de atribuição de prazer. E assim considerado, com as suas limitações, leva-nos ao erro de confundirmos o tédio que passou a ser um beijo com o tédio que acreditamos ser da pessoa que beijamos.
19 de janeiro de 2010
Bem-vindo à modernidade, Ms. Proust
29 de dezembro de 2009
O plural de Pai Natal é Pais Natais
Pai Natal, que se escreve sem hífen, é uma expressão lexical (e não um substantivo composto, caso no qual teria de ser obrigatoriamente grafado com hífen ou, pelo menos, preposicionado), constituída por um substantivo (Pai) e um adjectivo (Natal). Como na língua portuguesa os adjectivos concordam em género e número com os substantivos que qualificam, então Natal passa a Natais quando Pai passa a Pais: Pais Natais.
Na minha opinião, mesmo que se tratasse de um substantivo composto (coisa a que estamos condenados), o plural continuaria a ser Pais-Natais, uma vez que não me parece que Natal, tido como substantivo, determine o substantivo Pai (é estranho usar o argumento "há vários pais, mas só alguns são natal", pois também se aplicaria da mesma forma: "há várias couves, mas só algumas são flor", quando o plural de couve-flor é, reconhecidamente, couves-flores). Contudo, admito discordância neste ponto.
A língua está viva, para o bem e para o mal.
28 de dezembro de 2009
E agora: função do amor na fenomenologia do eu.
Um homem pode alcançar tudo na solidão, excepto um carácter.
Stendhal
Sentirmo-nos completos lembra-nos a ideia aristofânica da cara-metade proposta no banquete platónico. O ponto a que quero chegar é que o amor é a função através da qual nos podemos sentir completos. O amor permite um feedback contínuo, que funciona como uma confirmação permanente da nossa identidade própria. São, assim, necessários sempre dois para que haja uma completude identitária.
Pode ser assim entendido o conceito de um Deus, central à maioria das religiões, Deus esse que nos vê a todo o momento e nos ama. Ser visto significa que se existe, e ser visto por alguém que nos ama é receber os contornos directores daquilo que nós próprios desejamos intrinsecamente ser.
21 de dezembro de 2009
Os defeitos
Perceber o que as pessoas nos escondem é fácil, mas não leva a lado nenhum.
E Canetti
Para quê querer encontrar os defeitos da pessoa que amamos? É na idealização romântica que se constrói o nosso amor, procurar a desidealização é procurar a desconstrução e, por conseguinte, viver na desilusão.
3 de setembro de 2009
Rogério Casanova - «Pastoral Portuguesa»

Sempre me confundiu o uso do vocábulo 'hilariante'. As primeiras vezes que tive contacto com ele (estranhamente, lembro-me da primeira vez que tive contacto com um grande número de palavras) foi em desenhos-animados que propalavam o uso do 'gás hilariante' como método terrificamente incapacitante de inimigos. Numa determinada tarde de domingo dos anos 90 iniciais, inevitavelmente reservada a uma caminhada até ao clube de vídeo (supina diversão naquela época, naquela cidade), deparei-me com a capa de uma cassete VHS de um filme qualquer sobre porcos e gargalhadas. Aparentes críticos (de provável inserção ideológica em correntes anti-kakutanianas) classificavam-no, não só como a 'melhor comédia do ano', mas como uma obra 'hilariante'. Acreditei candidamente que seria uma história que me faria rir a bandeiras despregadas. Será fácil de perceber porque se tornou nebuloso, na minha mente ingénua de então, o conceito de hilariante. A verdade é que a forma desse conceito poucas vezes, ao longo da minha vida, foi preenchida com um conteúdo. Lembro-me, mais recentemente, dos discursos pausados do Bruno Aleixo, na sua crítica à ingénua e maliciosa estupidez da sociedade portuguesa, e da sua estética a roçar o kitsch.
Rogério Casanova era um ilustre desconhecido meu, até assinar, prenho de uma emoção lacrimejantemente cultural, a revista LER por um período de 12 meses, completos com direito a dicionário Houaiss de sinonímia. Casanova é um dos cronistas e escreve delirantemente sobre os temas mais eruditos e seriamente sobre os temas mais abstrusos, descortinando significados que parodiam caricaturalmente a realidade quotidiana (o que, de resto, sempre assumiu um papel prevalente na interpretação e compreensão do mundo através da arte). Casanova é o 'olho que fica de fora' de que nos falava Virginia Woolf, aquele cinismo que é necessário para nos apartarmos disto (a realidade) e, assim, termos as condições de acesso à sua inteligibilidade asseguradas. Comte dizia que ninguém pode estar à janela para se ver passar na rua: o escritor faz isso mesmo, deixa um terceiro olho na janela para se ver passar na rua. E Casanova faz também isso, misturando um insuperável humor na análise do que vê passar na rua. Pode haver quem critique o uso do humor como alguma falta de seriedade em temas que não se admitem como não sendo sérios. Mas, para mim, quem continua a ter razão é Goethe: o humor é o pátio de recreio da inteligência. Casanova é um escritor (e não afirmo isto de ânimo leve); e é um escritor inteligente.


