2 de abril de 2006

Porque continuo a achar que o pensamento não integra sinalização, ou seja, pontuação, e que a função desta é meramente auxiliar a exprimir graficamente o próprio conteúdo desse pensamento e a vivência fisiológica que o pode acompanhar, coisa a que chamamos ‘emoção’, considero alguma legitimidade na escrita assinaléctica de Saramago e toda a legitimidade nas frases intermináveis de Proust, como esta, que se vão desenrolando em espirais de fumo, entrelaçando-se, volteando e coleando, serpenteando pelo espaço onde recebemos e interagimos com os outros, ao ritmo e no discorrer próprio do nosso pensamento, sendo que a frase que, pela agilidade sintáctica, conseguir encadear ideias da mesma forma ordenada-desordenada que o pensamento humano, será a frase ideal, progredindo de vocábulo em vocábulo, de oração em oração, como o olhar interior percorre e contempla cada ideia, pára e repara, para logo ser captado por outro detalhe fugaz, numa corrente que só termina na palavra consciência.

Dickinson, 1247, tradução minha

Concentra-se como um Trovão no seu limite
Depois a queda enorme
Enquanto a Criação se esconde
Isto - seria Poesia -

Ou Amor - os dois são coevos -
A ambos e a nenhum provamos -
A ambos experimentamos e somos consumidos -
Pois ninguém vê a Deus e sobrevive -

1 de abril de 2006

Como a um cão

Joseph K. ainda estendeu a mão na direcção de uma janela onde via uma luz acesa, mas ninguém assomou contrastando em vulto contra a luz. Chamou com voz trémula, mas ninguém respondeu. Talvez a janela não estivesse ali. Talvez não passasse de uma projecção do seu desejo de fuga, uma janela imaginada no odor da morte iminente. Tudo era silêncio. O certo é que os carrascos o mataram como a um cão. Sim, essa foi a única certeza.


Emily Dickinson - 1247

To pile like Thunder to its close
Then crumble grand away
While Everything created hid
This - would be Poetry -

Or Love - the two coeval come -
We both and neither prove -
Experience either and consume -
For None see God and live -


Barbie pra frentex


In clorophormio.blogspot.com

30 de março de 2006

Galinha

Era uma vez uma galinha que vivia num galinheiro. Ela passava o dia a raspar o chão com as patas caquéticas e ictéricas a ver se achava minhocas. Mal via uma mais a descoberto, mais indefesa, ainda humedecida pelo orvalho matinal − zumba − debicava-a e engolia-a. Não a podia mastigar, pois é facto sobejamente conhecido que as galinhas não têm dentes. A minhoca entrava então na moela da galinha, começava a ser soqueada por todos os lados, porque esse é o estômago mecânico do galináceo, ao qual se segue o estômago químico. Dentro em pouco, a minhoca era digerida e absorvida pela galinha, passando a fazer parte do seu próprio organismo − a minhoca era agora galinha.

As galinhas são estúpidas em toda a propriedade do termo. Todos sabemos isso, e esta afirmação universal em particular não é uma falácia. As galinhas têm uma visão bidimensional, pois possuem um olho em cada lado de uma cabeça em quilha, cujos campos visuais não se sobrepõem. A galinha não tem, devido a esse facto, a capacidade de integrar imagens num córtex visual, de forma a ver a três dimensões. Para a galinha as outras galinhas são adversárias, mas é só entre elas que se sente bem. Tem o corpo coberto de penas e uma crista vermelha na cabeça, que serve para abanar quando corre de uma lado para o outro no seu jeito ridículo; e para tentar ameaçar os seres inferiores a elas.

Essa galinha de que estávamos a falar cacarejava todo o dia − ca ca ca − mas achava-se entendida e entendedora de tudo. Ela fugia ao confronto directo com o lince ou o furão, mas, nas suas costas, ia cacarejando «− Ele só sabe é miar. Mia mia mia... mas não percebe nada de nada, ca ca ca. A mim nunca me há-de apanhar, ca ca ca!» A galinha, por ser galinha, não tinha noção do ridículo que havia em si nem da sua função última de servilismo culinário. Secretamente, sabia que se enfrentasse o lince, seria comida por ele. Certo dia veio um homem com uma faca e Zás!, cortou-lhe a cabeça e ela, ca ca ca, continuou a espernejar e a correr de forma tonta, cega, decapitada, até finalmente tombar as penas na terra suja e ser posteriormente servida à mesa numa bandeja de louça branca, enfeitada com pequenas tiras de papel e condimentada com ketchup. No final da refeição houve alguém que comentou: «Que carne tão dura e seca».

25 de março de 2006

Marilyn

Virei as costas e caminhei pela penumbra da rua húmida. Já era tarde e essa fora a sua desculpa. Marilyn despedira-me novamente, queria ir dormir. Já eram passados alguns anos depois do Gentlemen Prefer Blondes e o seu êxtase, reflectido outrora no louro platinado do cabelo, desaparecera completamente e tinha dado lugar ao desespero. Afinal, Hollywood não era nem a resposta, nem a vocação. Marilyn perseguira o estrelato depois de ter levado uma vida mísera como operária fabril. Fora o desencanto com esta vida o móbil da sua fuga; e as luzes da ribalta, falsas estrelas, ofuscaram os seus olhos simples. O fausto tem o condão de seduzir e tornar as almas mais pequenas. Marilyn percebera isto ao fim de algum tempo e tentou trazer algum sentido e dignidade à sua vida através da inscrição no Actors Studio. Conseguiu uma personalidade minimamente estruturada através da amizade e identificação com o também misfit Montgomery Clift e isso deu-lhe um pressentimento e sede de ideias. Mas a falta de preparação para enfrentar a retórica manhosa de Arthur Miller, levou-a ao altar e, mais tarde, ao álcool e drogas. Inevitavelmente, é isto que acontece a quem cede a dialogar com o mal.

Deixei-a ali sentada na poltrona de veludo vermelho enleada num quimono de seda branca, olhando-me pelas olheiras exaustas e certamente pensando que estava a fazer o que achava melhor − a única forma de agir possível nas circunstâncias vitais a que chegara. Marilyn não soube aproveitar a bóia de salvação dos Kennedy, nem soube aproveitar a minha dedicação e preocupação. Queria que desabafasse sobre o seu despedimento do Something’s Got to Give, mas ela, amedrontada e aconselhada em contrário, não abria a boca sobre que lhe percorria a mente torturada. Marilyn estava perfeitamente controlada como uma marioneta e era incapaz de reagir por si. Tinha finalmente consciencializado isso. Marilyn nunca acordou dessa noite de suicídio.

20 de março de 2006

Nu

não é.............................................
...........lírios no canteiro do sono
......................................................

Os botões

«-A pena de morte é a única solução para muitos casos. E o próprio juiz e o júri é que carregam, todos ao mesmo tempo, nos botões e um deles liquida o condenado».

Pior é aquele que, sabendo dos seus erros, não os corrige

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca