«Every afternoon, as they were coming from school, the children used to go and play in the Giant's garden.»
2 de abril de 2006
Dickinson, 1247, tradução minha
Depois a queda enorme
Enquanto a Criação se esconde
Isto - seria Poesia -
Ou Amor - os dois são coevos -
A ambos e a nenhum provamos -
A ambos experimentamos e somos consumidos -
Pois ninguém vê a Deus e sobrevive -
1 de abril de 2006
Como a um cão
Emily Dickinson - 1247
Then crumble grand away
While Everything created hid
This - would be Poetry -
Or Love - the two coeval come -
We both and neither prove -
Experience either and consume -
For None see God and live -
30 de março de 2006
Galinha
As galinhas são estúpidas em toda a propriedade do termo. Todos sabemos isso, e esta afirmação universal em particular não é uma falácia. As galinhas têm uma visão bidimensional, pois possuem um olho em cada lado de uma cabeça em quilha, cujos campos visuais não se sobrepõem. A galinha não tem, devido a esse facto, a capacidade de integrar imagens num córtex visual, de forma a ver a três dimensões. Para a galinha as outras galinhas são adversárias, mas é só entre elas que se sente bem. Tem o corpo coberto de penas e uma crista vermelha na cabeça, que serve para abanar quando corre de uma lado para o outro no seu jeito ridículo; e para tentar ameaçar os seres inferiores a elas.
Essa galinha de que estávamos a falar cacarejava todo o dia − ca ca ca − mas achava-se entendida e entendedora de tudo. Ela fugia ao confronto directo com o lince ou o furão, mas, nas suas costas, ia cacarejando «− Ele só sabe é miar. Mia mia mia... mas não percebe nada de nada, ca ca ca. A mim nunca me há-de apanhar, ca ca ca!» A galinha, por ser galinha, não tinha noção do ridículo que havia em si nem da sua função última de servilismo culinário. Secretamente, sabia que se enfrentasse o lince, seria comida por ele. Certo dia veio um homem com uma faca e Zás!, cortou-lhe a cabeça e ela, ca ca ca, continuou a espernejar e a correr de forma tonta, cega, decapitada, até finalmente tombar as penas na terra suja e ser posteriormente servida à mesa numa bandeja de louça branca, enfeitada com pequenas tiras de papel e condimentada com ketchup. No final da refeição houve alguém que comentou: «Que carne tão dura e seca».
25 de março de 2006
Marilyn
Virei as costas e caminhei pela penumbra da rua húmida. Já era tarde e essa fora a sua desculpa. Marilyn despedira-me novamente, queria ir dormir. Já eram passados alguns anos depois do Gentlemen Prefer Blondes e o seu êxtase, reflectido outrora no louro platinado do cabelo, desaparecera completamente e tinha dado lugar ao desespero. Afinal, Hollywood não era nem a resposta, nem a vocação. Marilyn perseguira o estrelato depois de ter levado uma vida mísera como operária fabril. Fora o desencanto com esta vida o móbil da sua fuga; e as luzes da ribalta, falsas estrelas, ofuscaram os seus olhos simples. O fausto tem o condão de seduzir e tornar as almas mais pequenas. Marilyn percebera isto ao fim de algum tempo e tentou trazer algum sentido e dignidade à sua vida através da inscrição no Actors Studio. Conseguiu uma personalidade minimamente estruturada através da amizade e identificação com o também misfit Montgomery Clift e isso deu-lhe um pressentimento e sede de ideias. Mas a falta de preparação para enfrentar a retórica manhosa de Arthur Miller, levou-a ao altar e, mais tarde, ao álcool e drogas. Inevitavelmente, é isto que acontece a quem cede a dialogar com o mal.
20 de março de 2006
Nu
...........lírios no canteiro do sono
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Os botões
Pior é aquele que, sabendo dos seus erros, não os corrige
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca
