2 de novembro de 2006

Um post dedicado ao Ramos

Depois do «conceito de ironia em Sócrates», o «conceito de ironia em MacGyver»

15 de outubro de 2006

«Aquilo que é» é «Ele que é»

Platão percebera claramente que a explicação filosófica essencial para tudo o que existe devia afinal ser encontrada, não entre aqueles elementos da realidade que estão continuamente a ser gerados e que por isso nunca existem verdadeiramente, mas em alguma coisa que, por não ser gerada, é verdadeiramente, ou existe. Ora tal como foi sublinhado pelo autor desconhecido de Exortação aos Gregos, logo no III século d.C., o que Platão tinha dito era quase exactamente o que diziam agora os cristãos «apenas com a diferença do artigo. Porque Moisés disse: Ele que é; e Platão disse: Aquilo que é.» E é mesmo verdade que «qualquer uma das expressões parece aplicar-se à existência de Deus.» Se Deus é Ele que é, também é Aquilo que é, porque ser alguém é também ser alguma coisa. Contudo, o contrário não é verdadeiro, porque ser alguém é muito mais do que ser alguma coisa.

Étienne Gilson, Deus e a Filosofia

3 de julho de 2006

Leitura: vocação ou obrigação

Encontrei na Semana Médica um interessante artigo de opinião do Psiquiatra Pedro Afonso acerca da leitura, do qual passo a transcrever o mais importante.

Recentemente, Saramago chocou o país declarando o Plano Nacional de Leitura como infrutuoso, alegando que ler sempre foi e será coisa de uma minoria.

Estas palavras são compreensíveis, pois são poucas as pessoas que lêem regularmente, sendo o índice de leitura dos portugueses dos mais baixos da Europa.

A leitura não pode ser imposta por decreto-lei. O gosto pela leitura é portanto uma vocação. Porém, ninguém pode sentir-se atraído por algo que nunca conheceu verdadeiramente.

Nos dias de hoje as crianças vêem televisão e jogam no computador muito antes de aprenderem a ler. Por isso, torna-se importante limitar o tempo de computador e televisão de que elas usufruem. Elas precisam de estimular a imaginação através de jogos, para que mais tarde façam facilmente a transição para a leitura. Ou seja, é imprescindível exercitar dois aspectos fundamentais para ler: a imaginação e a capacidade para estar sozinho − porque ler é um acto solitário.

Um dos aspectos positivos da leitura é o enriquecimento da linguagem. Esta característica traz-nos inúmeros benefícios uma vez que se não conseguirmos exprimir-nos de forma adequada, o pensamento fica limitado e a compreensão da realidade muito difícil. Além disso, os livros ao permitirem descobrir o mundo de outras pessoas, possibilitam-nos através desse confronto um melhor conhecimento de nós próprios.

A leitura, tal como o cinema ou o teatro, desbanaliza a vida, dando-lhe profundidade e incitando à reflexão. Mesmo assim é errado pensar que ler muito é sinónimo de possuir uma cultura superior. Existem muitas pessoas que apesar de lerem abundantemente, depois não conseguem filtrar a informação, nem estruturar o saber; são os «leitores-esponja».

Por conseguinte, nem todos aqueles que têm hábitos de leitura aproveitam aquilo que lêem, nem os outros, que raramente pegam num livro, devem ser rotulados como uma espécie de «homens de Neandertal».

25 de junho de 2006

A beleza modulada nas palavras


A água fria murmura através dos ramos

das macieiras; toda a terra está sob a sombra
das roseiras; e das folhagens a estremecer
escorre o sono.

Safo

24 de junho de 2006

you know friend, this is a god damn bitch of an unsatisfactory situation.



Um céu aberto e limpo sobre a planura verde entrecortada por um curso de água fria que aquele reflecte, ou nuvens brancas pendendo silenciosamente recortadas contra uma navegação giratória azul, e por baixo a solidez imóvel e rochosa da montanha, onde dois seres se suspendem na osmose lenta daquilo que tudo enche, na possibilidade da compreensão possibilitante, o gesto contido por um olhar inefável que contém toda a esfera sustida nos ombros do deus. E quando a noite chega, depois do céu se inflamar, tudo se revela sobre o brilho frio do luar, enchendo-nos de um amor tão expansivo que o corpo não consegue conter senão no pressentimento, entre a vibração disposicional que se solta da lira de prata reverberada pela mão marmórea do deus que nos habita por um momento, enlevando-nos no êxtase do corpóreo para o envolvimento pleno e participativo da perfeição das Formas Belas. E tudo aqui é Belo, Belo por si e em si, mas sempre contrastado pela colectividade religiosa bruxuleante de bruxas, esquecida de mágicos e adivinhos, que passa pelo ranger dos dentes e olhares vazios dardejando iras desabridas e grotescas, imiscuindo a divindade com o anti-imaginário impossibilitante que escorre do terror pelo desconhecido ou incompreensível, negando caminhos diferentes, apartada de estagiritas ou academias, desprovida da pureza das sandálias aladas ou do dorso apolíneo que solta o arco, sem a hipostasia fulgurante de algo tão intenso que só pode ser verdadeiro.

Seria uma rima, não seria uma solução

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Oswald de Andrade